domingo, 22 de julho de 2007

Menina que esperava ser adotada tem "mãe" morta em acidente

artigo de JOÃO CARLOS MAGALHÃES da Agência Folha, publicado em 22 de julho, em Santa Maria

"Faltava pouco mais de uma semana para que Suelen, 3, ganhasse perante a Justiça uma nova mãe. Faltava pouco mais de uma semana para que Leila Maria Oliveira dos Santos, 35, realizasse seu sonho de adotar a menina. A tragédia com o Airbus-A320 da TAM, que vitimou a mulher, adiou a união legal.
Nesta semana, Leila iria participar da última audiência do processo de adoção, que tornaria oficial uma relação iniciada há cerca de dois anos e meio, quando as duas se conheceram na ONG Aldeias Infantis SOS, que cuida de crianças carentes, em Santa Maria (301 km de Porto Alegre).
Leila, que na época cursava o quarto semestre de pedagogia da Unifra (Centro Universitário Franciscano), passou a fazer um trabalho voluntário na ONG e se apaixonou pela menina de pele cor de bronze e cabelos lisos de quem cuidava na creche.
A menina Suelen, que havia completado há pouco um ano de idade, tinha sido abandonada pelos pais biológicos.Além de Leila, outras três pessoas ligadas à Aldeias morreram no acidente. Todas iam para um encontro da ONG. Era a primeira viagem da estudante. Ela ganhava cerca de R$ 700 por mês.
"Nem sei o que vai ser agora", diz o zelador Ademar Kessler, cunhado da morta, em frente à casa alugada de madeira onde ela morava, na periferia da cidade gaúcha.
De acordo com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o destino de Suelen não cairá necessariamente em um limbo jurídico. A lei permite que, mesmo morta, uma pessoa se torne, legalmente, mãe ou pai de alguma criança. A única condição é que o adulto tenha, em vida, demonstrado o desejo de adotar. É a chamada adoção "post mortem".
Devido à relação da menina com a estudante antes do acidente, Suelen já estava na fase de adaptação, essa possibilidade é dada como certa.
"A família terá que demonstrar interesse ou o Ministério Público pode interceder para que a criança fique com os parentes do morto", afirma Luciano Barcelos Couto, juiz substituto da Vara da Infância e da Juventude de Santa Maria.
Uma vez terminado o procedimento legal, a criança consegue, na Justiça, o status de filha biológica, e pode ficar com quem a família de sua nova mãe decidir.
Segundo Kessler, os próprios familiares darão continuidade ao processo de adoção e a avó será provavelmente quem ficará com ela.
Agora, é apenas o cunhado que fala com a imprensa pela família. A irmã e a mãe de Leila não falam mais com jornalistas. A cada vez que alguém liga querendo saber notícias dela, uma nova crise de choro começa. Celina, a mãe, chegou a ir para um hospital devido a uma crise nervosa na última sexta.
Para Suelen, pouca coisa mudou em seu cotidiano. Por enquanto, acha que mamãe foi viajar e voltará só no domingo. Além de brincar, continuou na semana passada indo para a creche que freqüenta todos os dias, a poucas quadras de casa.
"Às vezes, ela [Suelen] estranha ter tanta gente triste em casa e todo esse movimento", diz Kessler. "Quando alguém começa a chorar, colocamos ela para brincar com um gurizinho da vizinhança e fechamos a porta do quarto."A viagem da futura mãe talvez demore um pouco mais do que a dos outros mortos no acidente. Até a noite de sexta-feira, seu corpo ainda não havia sido reconhecido. "